Escreva para pesquisar

Dos receios no ônibus ao excesso de limpeza, questões do trabalho e da vida em pandemia

Compartilhe

Maria Felix, 46, e Maria de Fátima, 57, adaptam a rotina a constantes cuidados de higienização diante da necessidade de continuarem seus trabalhos como empregadas domésticas

Por Fernanda Rosário

Cumprir o isolamento social é permitido somente a alguns, para quem não tem outra fonte de renda ou atua em serviços essenciais, não houve alternativas além de voltar a trabalhar | Foto: Adobe Stock

Em um dia de folga de uma quarta-feira de agosto, Maria José Felix, 46, fala sobre as contas que continuam a chegar à casa em que mora sozinha em Cubatão, litoral de São Paulo. Maria é pernambucana, mãe de um casal e trabalhadora doméstica. Deixar de trabalhar para manter-se em quarentena não é possível para ela.  “Preciso pagar meu aluguel, o que apareceu eu peguei”. 

Quatro vezes por semana, depois de acordar às 7h da manhã, ela andava menos de dez minutos até o ponto de ônibus. Antes da pandemia, não havia problemas em pegar um dos intermunicipais, linha Cota, e dirigir-se para a casa da família em que trabalha conectada no celular e ouvindo música. Hoje, isso nem é considerado. “Eu não consigo sentar nos bancos, fico toda tensa. Levo meu álcool em gel e, na hora em que desço, já passo nos braços e mãos. Fico apavorada”. 

 “Novo normal”. O termo é recente e vem trazendo discussões acaloradas sobre os prós e contras de uma vida em pandemia. Para Maria Felix, pouco permaneceu o mesmo. Junto com milhares de outras brasileiras, seu dia a dia se adapta a uma realidade imprevista em um momento de constantes receios e indagações.

Não muito longe de sua casa, próximo a rodoviária do município cubatense, boa parte das semanas dela são dedicadas ao trabalho doméstico. Com a pandemia, a atividade doméstica esteve em meio aos debates que se seguiram no país sobre os serviços que deveriam ou não ser considerados essenciais. Os patrões de Maria Felix, receosos com o contágio e preocupados com os filhos pequenos, dispensaram Maria por três meses, sem tirar a remuneração.   

Para muitas mulheres trabalhadoras domésticas, estar totalmente em quarentena não é opção, ainda mais se a remuneração for cortada e não haver uma relação trabalhista formal. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2018, essas mulheres somavam um contingente de 92% dos mais de seis milhões de pessoas ocupadas com a atividade. Do conjunto de trabalhadores da categoria, 70,1% não possuíam carteira assinada. Diante da impossibilidade de manter-se em casa, buscar formas em que a exposição ao vírus seja reduzida ao máximo mostra-se como a solução mais imediata. “Com a volta do trabalho, minha patroa passou a vir me pegar de carro. Ela me busca em casa e me traz no final da tarde”, explica Maria Felix, que faz parte do conjunto de trabalhadoras informais. 

Na cidade vizinha, em Santos, Maria de Fátima dos Santos Jesus, 57, também sentiu a necessidade de se apropriar de outros hábitos em um contexto atípico. Sentada na cozinha da casa do filho mais novo, depois de mais um dia de trabalho, ela, que tem carteira assinada, relata como foi levar o serviço doméstico mesmo em meio a pandemia. “No começo, eu fiquei morrendo de medo e fiquei uma semana sem ir trabalhar. Comecei a ver como era a transmissão e a tomar meus cuidados, aí voltei a trabalhar e fiquei mais relaxada. Eu fico até às 19h, mas com essa pandemia estou saindo às 16h”. 

Maria de Fátima é santista, mãe de seis filhos já adultos e vive com o marido na cidade em que nasceu. O receio com o coronavírus fez com que os hábitos de higienização aumentassem, principalmente em um contexto de impossibilidade de se manter em isolamento social. “Ia morrendo de medo trabalhar. Subia pelas escadas, não queria saber de elevador, sempre de máscara, sempre com álcool em gel”, conta Fátima. “Passei agora a lavar as coisas, limpar as maçanetas em casa. Teve até um tempo que eu achei que eu estava ficando doida. Era muita limpeza”, completa. 

Maria Felix também demonstra que, em questão de higienização, é melhor pecar pelo excesso. “Fiquei neurótica com a limpeza. Hoje, limpo a casa mais do que antes. Quando chego, já tiro a capa do celular, passo álcool em gel, tiro a roupa, deixo o sapato lá fora. Vou direto tomar banho”. A máscara virou item obrigatório que, no serviço, só é retirada no horário de almoço.

Do mundo sem coronavírus, cresce a saudade. As Marias contam como sentiram falta do barzinho, do bailinho, de atividades do dia-a-dia que antes eram tão normais e despreocupadas. “Eu acho que a gente vê que praticamente não é nada. Acho que a gente fica com um pouco mais de sentimento, sabe?! Fica com medo, porque isso nunca aconteceu no mundo, pelo menos no tempo que eu estou viva. A gente fica pensando que pode pegar uma coisa dessas e de uma hora para outra morrer”, comenta Fátima. 

Em um país que soma mais de 5 milhões de infectados e mais de 150 mil mortes por Covid-19, estar vivo é um alívio. Dos aprendizados que conseguiu tirar de todo este cenário, Maria Felix conta que passou “a valorizar o convívio e o cuidado com os filhos”. Passou a ver tudo com outros olhos, exceto a ansiedade pelo fim da pandemia.

Redação

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Nam quis venenatis ligula, a venenatis ex. In ut ante vel eros rhoncus sollicitudin. Quisque tristique odio ipsum, id accumsan nisi faucibus at. Suspendisse fermentum, felis sed suscipit aliquet, quam massa aliquam nibh, vitae cursus magna metus a odio. Vestibulum convallis cursus leo, non dictum ipsum condimentum et. Duis rutrum felis nec faucibus feugiat. Nam dapibus quam magna, vel blandit purus dapibus in. Donec consequat eleifend porta. Etiam suscipit dolor non leo ullamcorper elementum. Orci varius natoque penatibus et magnis dis parturient montes, nascetur ridiculus mus. Mauris imperdiet arcu lacus, sit amet congue enim finibus eu. Morbi pharetra sodales maximus. Integer vitae risus vitae arcu mattis varius. Pellentesque massa nisl, blandit non leo eu, molestie auctor sapien.

    1

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *