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Personagens negros de diferentes segmentos sociais lidam com o mesmo problema e questionam a democracia racial existente no Brasil com base nas representações da comunidade e dos bairros nobres

Por Moema Novais e Victor Rezende

Paraisópolis, maior comunidade da cidade de São Paulo, tornou-se o bairro mais comentado do Brasil desde maio de 2015 – mês em que se deu a estreia, na faixa das sete da noite, da novela I Love Paraisópolis, exibida pela TV Globo. Com autoria de Alcides Nogueira e Mário Teixeira e direção de núcleo de Wolf Maya, a trama conta a história de amor de Benjamin (Maurício Destri), arquiteto nascido no Morumbi, bairro nobre do município, e de Marizete (Bruna Marquezine), que mora desde criança em Paraisópólis.

Além das casas na comunidade e dos apartamentos luxuosos das personagens do Morumbi, destaca-se outro ambiente: o escritório da psicóloga Patrícia (Lucy Ramos). Nele, a profissional, que morou em Nova Iorque, mas voltou a viver em São Paulo, atende personagens da trama como os vilões Soraya (Letícia Spiller), Grego (Caio Castro) e Alceste (Pathy Dejesus). Além de servir de ponte para os problemas dos antagonistas da trama, Patrícia, em sua própria história, chama atenção por tratar de um assunto pouco abordado de forma concentrada nas telenovelas cujo fio condutor é o humor: o racismo.

A psicóloga, que é negra, namora Lindomar (Gil Coelho), um homem branco cuja mãe, Silvéria (Ilana Kaplan), não aceita o relacionamento entre os dois devido à diferença da cor da pele do casal. No capítulo exibido no fim de julho (23), Lindomar leva Patrícia para conhecer a sua família durante um jantar oferecido por Silvéria, que não esconde a sua surpresa ao conhecer a sua nora negra. Ao longo do jantar, a personagem faz diversos comentários racistas que ofendem e deixam Patrícia desconfortável. A mãe de Lindomar questionou a nora sobre o gosto desta por Carnaval; por feijoada; se ela tem samba no pé; se é, de fato, psicóloga formada; e se mora mesmo nos Jardins, região nobre paulistana.

Em cena de jantar na casa dos sogros, Patrícia

Em cena de jantar na casa dos sogros, Patrícia (à direita, de preto) fica constrangida por preconceitos ditos por Silvéria (à esquerda, sentada à mesa, de cima para baixo) (Foto: Reprodução/TV Globo)

Em outra cena, a personagem Soraya (Letícia Spiller), antiga paciente de Patrícia, paga a conta do jantar da moça e do seu namorado e, ao ser confrontada pela psicóloga, a ofende dizendo que “só podia ser preta mesmo”. Patrícia aciona a polícia e abre um processo por injúria racial contra Soraya. Para tentar reverter a situação, Gabo (Henri Castelli), marido de Soraya, tenta subornar Patrícia e Lindomar para inocentarem sua esposa da acusação.

Essas duas cenas exemplificam a abordagem que a novela faz sobre o racismo. Lucy Ramos contou, em entrevista à revista Época, que recusou um papel de uma personagem moradora da favela na novela Babilônia, exibida no horário das 21h da Globo, para interpretar a psicóloga Patrícia. “Achei ótimo fazer uma personagem refinada, não estereotipada, diferente de tudo o que já fiz. Nós, negros, sempre interpretamos empregados, escravos ou estamos em situação inferior”, disse a atriz ao jornalista Bruno Astuto.

Audiência e repercussão

Na noite de estreia, a novela marcou 30 pontos de acordo com medição do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) na cidade do Rio de Janeiro, com 40% de participação. Em São Paulo, I Love Paraisópolis atingiu 29 pontos com 44% de share. Esse foi o maior índice de estreia no horário desde 2012, quando a Globo lançou a novela Cheias de Charme, que atingiu 35 pontos, de acordo com o Ibope.

Desde que estreou, venceu diversas vezes a novela das nove, Babilônia, e vem mantendo médias entre 22 e 25 pontos na Grande São Paulo, praça que serve de base para o mercado publicitário. Cada ponto em São Paulo equivale a 67 mil domicílios.

Nilson Xavier, dono do site Teledramaturgia, afirma que “como o produto de maior audiência da TV aberta brasileira, de grande penetração nos lares, as telenovelas têm grande responsabilidade na abordagem dos temas, seja quais forem”. De acordo com o pesquisador, a relevância das telenovelas pode ser percebida pelos números de audiência, que mantêm as telenovelas como o produto mais popular da televisão brasileira há mais de 40 anos.

O negro na teledramaturgia brasileira

O documentário A Negação do Brasil, de Joel Zito Araújo, lançado em 2000, aborda a presença e a representatividade da população negra nas telenovelas brasileiras. O filme retrata a imortalidade da atuação de Isaura Bruno em O Direito de Nascer (1964) como Mamãe Dolores. Apesar de toda a repercussão que a atriz teve na época, só conseguiu atuar em mais três novelas nos seis anos seguintes antes de morrer pobre e desconhecida.

A novela A Cabana do Pai Tomás (1969) teve o primeiro grande elenco negro e o último blackface da televisão brasileira. Sérgio Cardoso interpretava três personagens: Pai Tomás, Dimitrius e Abraham Lincoln. Para se caracterizar como Pai Tomás, o ator se pintava com uma tinta preta e colocava rolhas no nariz e algodão na boca para falar de um jeito mais abafado. A escolha de um ator branco para interpretar o protagonista da história causou a primeira polêmica pública sobre a questão racial nas telenovelas brasileiras e provocou protestos em São Paulo, liderados por Plínio Marcos, escritor e dramaturgo brasileiro.

Milton Gonçalves, militante no Teatro Experimental do Negro (TEN), também se opôs à escalação de Sérgio Cardoso. De acordo com o portal Geledés, o TEN existiu de 1944 a 1961, atuou no nascimento do teatro moderno brasileiro e trabalhava pela cidadania dos atores por meio da conscientização e da alfabetização. A companhia buscava talentos entre operários, empregadas domésticas, moradores de favelas e funcionários públicos sem profissão definida. O Teatro Experimental do Negro estreou em 1945 com a peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill, por ser o texto mais próximo da realidade da população negra após a abolição da escravidão no Brasil.

De acordo com o cineasta Joel Zito Araújo, no início da década de 1990, algumas histórias começaram a abordar a desigualdade racial no Brasil. A novela Pátria Minha (1994) apresentou uma cena que se tornou a maior briga de uma emissora brasileira – no caso, a TV Globo – com o movimento negro: o empresário Raul Pellegrini (Tarcísio Meira) acusa o funcionário Kenedy (Alexandre Moreno) de ter aberto um cofre de sua casa.

Ainda segundo o cineasta, quatro dias após a exibição dessa cena, uma entidade negra de São Paulo procurou a Justiça com uma notificação contra os responsáveis pela novela, acusando os roteiristas da história de terem criado uma situação que feria a autoestima da comunidade negra. Gilberto Braga, autor da trama, respondeu que essa ação feria a liberdade de expressão; três dias depois, mais três entidades ameaçaram entrar com uma ação indenizatória por danos morais e materiais. A polêmica se encerrou quando a Rede Globo e os autores reconheceram que as pressões e as exigências eram justas, e prometeram exibir uma cena condenado o racismo.

Nos anos 2000, após um período de involução na participação de atores negros em produções de teledramaturgia, houve uma nova evolução. Em 2004, Taís Araújo foi a protagonista de Da Cor do Pecado ao lado de Reynaldo Gianecchini na TV Globo, sendo a primeira negra a representar o papel principal de uma novela na emissora. Em 2009, a atriz também foi a primeira protagonista negra de uma novela das nove, faixa mais atrativa do mercado televisivo brasileiro desde os anos 1970. Dessa vez, Taís Araújo foi a personagem principal de Viver a Vida, novela de Manoel Carlos na faixa nobre da Globo.

No entanto, não há uma grande evolução de atores negros para papéis importantes em novelas e séries televisivas brasileiras. Destacam-se na nova geração nomes como Camila Pitanga, Lázaro Ramos, Juliana Alves, Lucy Ramos, Cris Vianna, Fabrício Boliveira, Marcelo Mello Jr., Rafael Zulu, Pathy Dejesus e Babu Santana.

Atores negros que fazem parte da nova geração. Da esquerda para a direita: Lucy Ramos, Cris Vianna, Rafael Zulu, Juliana Alves, Lázaro Ramos, Taís Araújo, Camila Pitanga, Babu Santana, Fabrício Boliveira, Pathy Dejesus e .

Atores negros que fazem parte da nova geração. Da esquerda para a direita: Lucy Ramos, Cris Vianna, Rafael Zulu, Juliana Alves, Lázaro Ramos, Taís Araújo, Camila Pitanga, Babu Santana, Fabrício Boliveira, Pathy Dejesus e .

Os papéis do negro e da periferia

O coletivo Nós, mulheres da periferia é composto por oito jornalistas e uma designer, moradoras de bairros periféricos da cidade de São Paulo. O objetivo desse movimento é preencher a lacuna da falta de representatividade das mulheres da periferia na mídia, buscando protagonismo e visibilidade por elas mesmas. Lívia Lima é integrante do coletivo e acredita que as telenovelas podem gerar debate na sociedade. “É um gênero muito consumido e são narrativas que geram empatia e envolvimento. Se as pessoas se reconhecem e se sentem representadas por essas histórias, podem debater as questões que as novelas apresentam”, afirma.

Lívia acredita que os moradores de favelas e periferias são retratados de maneira estereotipada, geralmente negativa. “As histórias sempre transmitem a ideia que o final feliz é sair desse lugar e ascender economicamente. Somos contra esse tipo de narrativa, do racismo implícito que coloca as mulheres negras como empregadas domésticas e os negros como bandidos”, explica. Em relação a esse aspecto, uma das mudanças de I Love Paraisópolis é a de os protagonistas se casarem, mas optarem por morar na comunidade, e não em algum bairro nobre de São Paulo, apesar de o ‘mocinho’ da história ter condições financeiras para isso.

Paloma Augusta é publicitária e afirma que, “hoje, a presença do negro é mais forte, mas. por muitos anos, ele foi colocado nas telenovelas com uma temática muito limitada”. Ela acredita que as novelas conseguem atingir todas as classes sociais e, como todo produto midiático, acabam auxiliando na formação de opinião. Nilson Xavier, pesquisador e dono do site Teledramaturgia, afirma que as telenovelas auxiliam a discutir temas por meio de abordagens ficcionais. “Geralmente, isso acontece por vontade do novelista, por sua percepção do mundo, por sugestão da emissora, órgãos da sociedade ou uma demanda da sociedade”, explica.

Paloma afirma que uma maneira de abordar o debate racial nas novelas, é inserindo mais negros como atores e em diversos papéis. “Não precisa, necessariamente, ter uma discussão racial dentro da novela. Eu acho que o produto precisa naturalizar a presença do negro”, afirma. Para Lívia, do coletivo Nós, mulheres da periferia, a periferia deve ser retratada “de forma que não a diminua, sem subestimar o povo bonito e inteligente que mora nela, mas sem também ignorar ou romancear os problemas reais” desses ambientes.

Nilson Xavier, por sua vez, afirma que “novela é ficção. A telenovela até pode ser pautada na realidade de forma jornalística, mas não é sua obrigação, tampouco seu objetivo [ser jornalística]”. O pesquisador de telenovelas relata que esses produtos fazem as abordagens sociais à medida que elas ganham importância, relevância ou visibilidade na sociedade. “O racismo amplamente discutido hoje, não era abordado desta forma há 30 anos, porque no passado não se discutia assim, abertamente”, completa.

Lívia Lima acredita que o maior problema na representação da periferia é que quem escreve e produz não veio de bairro periféricos e, por isso, já tem uma ideia formada sobre o lugar. “Nós moradores da periferia queremos contar nossas histórias por nós mesmos, quando alcançarmos esses postos e realizarmos essas produções, as representações serão mais fiéis e justas”, afirma. Em 2015, nenhuma das novelas dos três principais canais de TV aberta do Brasil – Globo, Record e SBT – exibe novelas escritas por autores negros, nem dirigidas por diretores de núcleo negros.

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Redação

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