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Pecado congênito

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Durante muito tempo, a homossexualidade e outros comportamentos sexuais e identidades pessoais foram classificados como distúrbios mentais ou doenças. Até 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS), incluía o homossexualismo em sua classificação internacional de doenças (CID), como uma doença mental.

Os tratamentos envolviam métodos como lobotomia, hipnose, choques, ingestão de remédios indutores de vômito durante a exibição de cenas de sexo gay. Em um processo de revisão da lista, no entanto, a homossexualidade foi retirada, seguindo a tendência de associações de psiquiatria e psicologia. Hoje há praticamente um consenso científico de que não se trata de uma questão de saúde pública, mas de foro íntimo.

Apesar disso, mesmo antes de ser tratada como doença, a homossexualidade é tratada como pecado por diversas correntes religiosas – inclusive as judaico-cristãs, formadoras da moral ocidental característica de nossa sociedade. Vista como um mal da alma, é alvo de orações, promessas, retiros, expurgos – na maioria das vezes, ineficazes, e causadores de culpa, ansiedade e baixa auto-estima em diversos fieis pertencentes a esses grupos.

Em outros casos e mais contemporaneamente, vertentes e comunidades mais progressistas de algumas religiões oferecem a acolhida, a aceitação e a reconciliação consigo mesmo que costumam ser negadas aos jovens pela maior parte das instituições tradicionais.

Autoaceitação

Em uma pesquisa de 2012, publicada pela Universidade de Columbia, nos EUA, foram entrevistados 32 mil jovens entre 13 e 17 anos. O estudo permitiu a conclusão de que gays, lésbicas e bissexuais estão cinco vezes mais propensos a tentar o suicídio, se comparados com jovens heterossexuais na mesma faixa etária. Além disso, também ficou evidente a influência do ambiente em que esses jovens estão inseridos: se em um círculo social mais receptivo à sua orientação sexual, a probabilidade da tentativa de suicídio cai 25%.

“A adolescência já é uma fase difícil para todo mundo, naturalmente, e para mim foi exacerbado”, conta Rael Dominiqui. O jovem cresceu na igreja evangélica, mas hoje não se considera religioso. Ao recordar o processo de autoaceitação de sua homossexualidade, Rael relembra que chorava de soluçar todas as noites, até conseguir dormir: “Eu pedia pra Deus me mudar, porque eu não gostava de quem eu era”.

Gustavo Henrique compartilha da mesma vivência. O jovem também cresceu em um lar evangélico, e relata que os sentimentos mais pungentes nessa época eram a culpa e o medo. “Eu pensava que Deus não gostava de mim, que eu estava fazendo algo errado. Eu lembro de chorar nas madrugadas, começar a orar e me perguntar por que eu tinha que ser diferente, por que comigo. E pedir muito, muito, muito, pra acordar no dia seguinte e ser uma outra pessoa”.
Para Rael, essa foi a maior crueldade que a Igreja poderia ter exercido sobre ele: tornar ele mesmo seu pior inimigo. “É normal você não ser aceito por todo mundo, mas quando você não se aceita, quando você não gosta de quem você é…”, pontua.

Rodrigo Santos também cresceu em um lar evangélico e também acabou se afastando da religião


Para Rael e Gustavo, o afastamento da igreja foi praticamente inevitável.

“A última vez que eu entrei na igreja eu jurei pra mim mesmo que eu nunca mais ia pisar lá de novo. Nesse dia, o pastor falou que a pomba-gira é o demônio que causa a homossexualidade e destrói as famílias”, relembra Gustavo. Ele teve uma crise de ansiedade depois de ouvir as palavras do líder religioso. “Foi uma via de mão dupla: à medida em que eu ia me aceitando melhor, eu ia me afastando daquilo que fazia eu me sentir errado”, explica.

A história, no entanto, nem sempre é de ruptura.

A estudante Marcela Benneti, bissexual, buscou sua aceitação dentro da igreja católica. “Para mim sempre foi um desafio, uma missão: que eu pudesse juntar as duas coisas, para que eu não me sentisse mal, para que eu continuasse seguindo algo tão importante pra mim, que é a religião, e ao mesmo tempo pudesse continuar sendo quem eu sou, sem esconder nada”.

Progressismos e comunidade

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Mesmo longe da casa dos pais, Marcela mantém diversas imagens religiosas em seu quarto, em Bauru. (Foto: Pedro Maziero).

Calu Cavalcante, outro jovem católico, relata que, inicialmente, conforme mais fiéis ficavam sabendo de sua orientação sexual, isso acabava gerando um afastamento. “Depois eu fui entendendo que é só uma questão de que, quem quiser se abrir, que se abra para entender”.

Ele se manteve atuante na igreja, coordenando um dos ministérios de sua comunidade, e acredita que essa é uma das formas de vencer o preconceito. “Tem um discurso formado, e muitas pessoas só repetem esse discurso formado, mesmo sem entender. Quando você senta e tem contato com essas pessoas, tudo muda. Parece que no individual o discurso pode ser alterado”, explica.

Marcela também valoriza o poder que exerce quando está inserida na comunidade, pregando a tolerância e o respeito à diversidade. “Eu saio da religião, que é algo grande, enorme, e que talvez eu não tenha força para interferir, e falo da minha comunidade, que é uma igreja, uma pastoral, onde as minhas ações interferem”.

Ela conta que sugeriu que um dos encontros de jovens promovidos periodicamente tivesse os LGBT+ como tema. A sugestão foi acatada e o dia do encontro foi um dos dias de maior realização pessoal para a jovem. “Não só eu, mas acho que mais da metade das pessoas que estavam ali tinham alguma experiência sobre a sua sexualidade, gostariam de falar, gostariam que houvesse abertura – e fui eu quem promovi essa abertura.”

Mesmo também tendo presenciado a ação de pessoas mais progressistas dentro de sua antiga igreja, Gustavo relata que nem sempre há abertura suficiente. “Eu vi essas pessoas sendo massacradas – muito mais que eu, porque eu ficava na minha. Quem batia de frente era colocado contra a parede”.

Marcela e Calu seguem atuantes em suas comunidades. A jovem diz que, se for colocar no papel, vê muitos pontos negativos na igreja católica. “Só que a questão da fé, ela é maior. Porque quando você se depara com a figura, ou a energia, ou, sei lá, que seja – Deus é algo que, dentro de você, você tem certeza: aquilo é certo, aquilo existe, aquilo eu não posso negar”, contrapõe.

“O que veio de cima sempre foi um discurso de amor, de aceitação, mesmo. Mas eu já vi, com amigas minhas, inclusive, outras pessoas da comunidade lançando olhares tortos, fazendo fofoca, e até comentários diretos que não são nem um pouco amorosos e que incomodam muito”, conta. Marcela diz que, sempre que tem a oportunidade, procura dialogar com os outros fiéis e estimular uma maior aceitação do diferente.

Calu também admite que há determinados dogmas com os quais não concorda. Ele conta que já foi até a um retiro cujo tema era o “retorno ao plano original” – com pregações sobre a valorização da família e dos papéis tradicionais do homem e da mulher. “Tinha coisas que eu aceitava, mas outras coisas eu pensava estarem além do que devia ser ensinado”, pondera.

Roberto Francisco, o “padre Beto”, ficou conhecido no país após ter sido excomungado pela igreja católica em 2014. A justificativa da excomunhão foram os discursos progressistas do padre, que defendia abertamente o respeito à diversidade sexual

Redação

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