Escreva para pesquisar

O Brasil nas ruas

Compartilhe

Os últimos acontecimentos políticos no país tem levado o brasileiro a ir às ruas manifestar sua opinião.
Por Érika Turci e Mariane Ribeiro

O ano de 2016 foi marcado por uma intensa movimentação política no Brasil. Começou com a possibilidade do pedido de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff. O governo da presidenta já causava insatisfação de parte da população desde antes da sua reeleição em outubro de 2014, sendo uma das mais acirradas desde 1989. Dilma foi reeleita em 26 de outubro com 51,6% dos votos válidos segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A petista perdeu 1,25 milhão de votos em relação à eleição anterior.  

Em dezembro do mesmo ano, foi anunciado um ajuste fiscal que gerava mudanças nos benefícios dos previdenciários. Essas alterações, segundo a Central Única dos Trabalhadores (CUT), atinge cerca de 49 milhões de pessoas no caso do seguro-desemprego, 23 milhões de pessoas no caso do abono salarial e 600 mil pescadores no caso do seguro defeso. A justificativa foi de combater fraudes e cortar 18 bilhões de reais nas despesas da União. 

Em fevereiro de 2015, após os primeiros impactos do ajuste fiscal serem sentidos, a popularidade da presidenta caiu de 52% para 23%.

Ao longo do segundo mandato, várias denúncias de corrupção foram investigadas e vários nomes importantes ligados ao governo Dilma, e também à oposição foram citados na Operação Lava Jato, que investigava desvios de dinheiro da Petrobras.

Somadas a essas denúncias temos a crise financeira pela qual o Brasil está passando e que causaram a insatisfação de parte da população. O país passa um por um momento de estagnação, que foi resultado de vários fatores, entre eles a falta de investimento em infraestrutura. A gestão econômica tinha uma estratégia de reação aos fatos, ou seja, medidas emergenciais eram tomadas para amenizar os impactos da investigação.

Outro fator que tem contribuiu para a crise financeira é a imagem que o Brasil teve no exterior, com vários esquemas de corrupção sendo denunciados e nenhum envolvido sendo punido. Isso tem causado uma falha na credibilidade no Brasil frente aos investidores externos. Temos uma questão fiscal, nossa dívida não pára de subir. Isso tudo em um ambiente político que não apoia as medidas necessárias para resolver esse problema fiscal. A saída é conseguir resolver essas medidas. Isso fará com que o índice de confiança se recupere, que os investidores deixem de cortar investimentos e que os consumidores parem de frear os gastos” disse o economista-chefe do Itaú/Unibanco, Ilan Goldfajn, em entrevista ao jornal El País.

Em razão desse cenário político e econômico, foi instaurado um clima de culpabilização ao governo Dilma que dividiu o país entre apoiadores e defensores do impeachment. A população foi às ruas em manifestações que chegavam a somas cerca de 100 mil pessoas cada uma e sofreram reações diferentes tanto da mídia quanto do próprio governo. Essas manifestações traziam as mais variadas pautas: contra e a favor da presidenta, contra e a favor do impeachment e também contra e favor do atual presidente Michel Temer.

Não há dúvidas que de que as manifestações de junho de 2013 serviram como catalizador para que pessoas saíssem nas ruas. As manifestações de 2013 criaram na população um senso político muito grande, mas também resultou em uma maior polarização da política brasileira, resultando em embates partidários e na separação das pessoas entre “coxinhas” e “petralhas”.

Em meio a esse cenário, os grupos oposicionistas como Vem pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados Online, convocaram protestos contra a presidenta para o dia 15 de março de 2015 massivamente através das redes sociais. Os organizadores se declaram apartidários, mas receberam apoio de partidos da oposição como PSDB, DEM e PPS e seus filiados.

No dia 13 de março, dois dias antes dos protestos contra o governo de Dilma, movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda realizaram em 24 estados e no distrito federal, um ato em defesa da Petrobras, contra o ajuste fiscal e contra o impeachment da presidenta. De acordo com a CUT, o ato reuniu cem mil manifestantes em São Paulo. Já para a polícia militar, o número foi de doze mil pessoas.

Manifestações Fora Dilma

manifestacao-na-paulista-13-de-marco-ricardo-nogueira-epoca

Manifestação na Paulista, 13 de março (Ricardo Nogueira/Epoca)

As manifestações de 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015 levaram milhões de pessoas às ruas. Em 2016, as manifestações voltaram a acontecer no dia 13 de março. Os protestos do dia 13 de março de 2016 foram considerados as maiores contra Dilma, superando as Diretas Já nos anos 1980. E, seguiram nos dias 16, 17, 18, 19, 20 e 21 de março. De acordo com a Polícia Militar, essas manifestações de março levaram cerca de 3,6 milhões de pessoas às ruas em 300 municípios do país. Já os organizadores, contaram 6,9 milhões. De acordo com o DataFolha, no domingo do dia 13 de março de 2016 havia cerca de 500 mil pessoas na Avenida Paulista em São Paulo. Grande parte dos manifestantes vestia verde e amarele e levava cartazes contra a corrupção, o governo federal, o PT e contra a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil. Havia muitos cartazes pedindo a volta da Ditadura Militar no Brasil também.

Márcio Augusto Ferreira, 51 anos, foi em todas as manifestações na cidade de São Carlos, SP e comentou: ” Participei de todas as manifestações que tiveram em São Carlos. Desde a primeira da turma do passe livre e até as últimas do impeachment. Achei emocionante e contagiante. Na primeira, meu pai de 85 anos foi e adorou. Nas outras levei mulher e filhas.”

Ele ainda falou sobre a ação da polícia durante as manifestações, ”o comportamento da polícia foi cordial. Na primeira tinham alguns com os rostos cobertos que foram abordados gentilmente por PMs ou policiais a paisana. Em nenhum momento houve qualquer tipo de stress. Era um clima festivo em geral.”

Ivonete Romano, 50 anos, foi em uma manifestação Fora Dilma em Abril de 2016 em Campinas, SP, e comparou o ato a uma festa:Achei a cobertura ótima, tinha um palanque em cada quarteirão da avenida com um locutor  falando sobre o propósito da manifestação, com telões para que todos pudessem ver e ouvir o que falavam. E também como entretenimento  para que o povo não fossem embora show musical. Para mim, além de defender uma causa, estava me divertindo.”

Giovana Bosso, 16, também participou de uma manifestação a favor do impeachment de Dilma em Campinas e ressaltou a organização da manifestação: “foi uma experiência muito boa e importante pra mim, pois vi as pessoas unidas defendendo o mesmo que eu, tinha famílias com crianças, idosos, foi muito bem organizado e sem nenhum vandalismo. O meu sentimento foi de fazer parte da sociedade e de que cumpri um pouco do meu papel como cidadã, pois lutei e fui às ruas mostrar o que queria e realmente ver a democracia acontecer, vi o povo ser ouvido!”.

O Impeachment

Em 2016 as primeiras manifestações estavam ligadas ao processo de impeachment que foi aceito em dezembro de 2015 pelo então presidente da câmara Eduardo Cunha. A principal acusação contra a presidenta eram as pedaladas fiscais do governo, que foi considerado pelo Tribunal de Contas da União como sendo um crime de responsabilidade fiscal.

Os esquemas de corrupção da Petrobras, envolvendo desvio de dinheiro público para empresas e políticos em um esquema de propina. O processo, que ficou conhecido como Operação Lava a Jato contou com várias delações premiadas, chegando a nomes como Eduardo Cunha, porém a presidenta Dilma não era alvo das acusações dessa operação.

A sessão em plenário na Câmara para analisar a admissibilidade do processo aconteceu em 15 de abril e novamente no dia 16. A votação ocorreu no dia 17 durou 9 horas e 47 minutos e o resultado final foram 367 votos a favor da abertura do impeachment contra 137 contrários.

Após a aprovação na Câmara, o processo foi para o Senado, onde foi aprovado com 61 votos a favor e 20 contra, sendo que houve duas ausências e uma abstenção. O julgamento aconteceu no dia 31 de agosto e durou mais de duas horas e contou com um discurso da presidenta Dilma.

O fora Temer

Após a finalização do processo de impeachment surgiram várias manifestações em apoio à presidenta Dilma Rousseff. Essas manifestações ficaram como conhecidas como “Fora Temer” e aconteceram em várias cidades do Brasil, sendo a maior delas em São Paulo no dia 4 de setembro. Segundo a organização a manifestação contou com a participação de cerca de 100 mil pessoas.

junior-lago-uol-manifestcao-4-de-setembro

Manifestação “Fora Temer” de 4/9 reuniu mais de 100 mil pessoas segundo organizadores (Junior Lago/UOL)

As manifestações têm um cunho pacífico e democrático, e desperta nos manifestantes um sentimento de pertencimento a um movimento político como explica Tatiani Ribeiro, 35 anos, ao falar sobre sua participação nos atos “Nasceu um sentimento de pertencimento ao imaginar que todos juntos podemos mudar algo. Acreditei, naquele momento, que uma sociedade mais justa seria possível”.

A primeira manifestação em São Paulo após o golpe aconteceu na noite de quarta-feira, 31 de agosto, logo após a posse do atual presidente Temer. A manifestação tinha como objetivo mostrar o descontentamento de parte da população com o governo que se iniciava e foi fortemente repreendida pela polícia militar com bombas de gás lacrimogêneo. Segundo a polícia militar, os manifestantes estavam praticando atos de vandalismo.

Foi durante o protesto da noite do dia 31 que a estudante Deborah Fabri, 19 anos, perdeu a visão em função de ferimentos causados por estilhaços de bombas lançadas pelos policiais. Segundo o jornal  O Estado de São Paulo essa é a terceira vez em três anos que manifestantes ou profissionais de imprensa ficam cegos em função da ação violenta da polícia militar contra manifestações em São Paulo.

As ações da polícia durante as manifestações contra o governo do presidente Michel Temer são relatas pelos manifestantes como violentas e sem justificativa. Barbara Barbieri, 19 anos, diz que durante as manifestações “o comportamento da polícia é deplorável, principalmente porque eles atacaram muitas bombas na quinta feira e no final da manifestação de domingo (4) ”.

Barbara ainda chama a atenção para o fato de que as manifestações de dia de semana e de fim de semana tem um público muito diferente, “De meio de semana se vê mais estudantes, um pessoal bem mais jovem. A manifestação já fica bem mais ativa. E de domingo adquire mais uma coisa ‘família’. Vê de idoso a cachorro. E, logo, tem um caráter mais passivo e partidário”

A manifestação do dia quatro de setembro foi o sétimo protesto contra o presidente Temer em uma semana. O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, disse ao G1 que 100 mil pessoas participaram do ato. A polícia militar não divulgou uma estimativa. No auge do movimento, a manifestação ocupava três quarteirões da Av. Paulista.

j-duran-machfee-futura-press-estadao-conteudo

Manifestação do dia 4 de setembro (J. Duran Machfee/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Partindo de uma convocação nas redes sociais, a organização do protesto foi feita pela Frente Brasil Popular e pelo grupo Povo Sem Medo que abrange mais de 30 movimentos sociais distintos, entre eles o MTST. Além de pedir a saída de Michel Temer, os manifestantes também clamavam por novas eleições presidenciais.

Durante as quatro horas de ato, que começou na Av. Paulista e foi até o Largo do Batata não houve atos de violência. Apenas depois que manifestação já havia acabado a polícia começou a usar bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar aqueles que já estavam indo embora.

Segundo a PM, eles reagiram a atos de vandalismo e manifestantes que tentavam acertar os policiais com pedras. Porém a versão dos manifestantes é de que não houve nada disso antes dos policiais começarem a agir. Barbara conta que “no domingo, a polícia esperou o ato terminar e quando ela achou que já tava na hora de dispersar, começaram a tacar as bombas”. Luciana Navarenho, 40 anos, conta que por conta das ações violentas da PM, muitas pessoas deixam de comparecer “ultimamente tenho sentido muito medo, porém não parei de participar. Só resolvi que não irei caminhar até o final do percurso. Muitos amigos que converso apresentam o mesmo medo. Alguns já disseram que não irão mais”.

A reação do governo

Durante os primeiros dias de protesto, o atual presidente do Brasil, Michel Temer, que estava na China em uma reunião do G20, afirmou em uma coletiva de imprensa que as manifestações eram compostas por “grupos pequenos e depredadores”. Durante a mesma coletiva, o presidente disse que eram 40, 50 pessoas protestando e que não se tratava de uma manifestação democrática porque houve depredação de patrimônio público e privado.

ronaldo-silva-futura-press-estadao-conteudo

Manifestante ironiza fala de Michel Temer sobre as manifestações (Ronaldo Silva/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Após o presidente minimizar as manifestações, a reação da população foi compor com mais peso o ato do dia 04, o que acabou forçando o governo a mudar o seu posicionamento em relação aos protestos. Segundo o jornal O Globo, há no Palácio do Planalto uma precaução de que determinado posicionamento governamental pode estimular as pessoas a participarem das manifestações.

Depois disso o governo passou a se referir às manifestações como algo grande e que deve ser respeitado, pois manifesto é um direito do povo e parte da democracia. É um discurso semelhante ao utilizado pela presidente Dilma durante os atos contra o seu governo.

O presidente tem encarado os manifestos e as vaias a sua pessoa como uma reação normal. Durante o desfile de 7 de setembro em Brasília e na abertura das Paralímpiadas no Rio de Janeiro, Temer recebeu várias vaias e gritos de “Fora, Temer”, mas o presidente comentou com seus aliados que não se sente particularmente atingido, pois o impeachment é muito recente.

A mídia e as manifestações

Uma das maiores queixas dos manifestantes sobre a cobertura das mídias é que raramente se vê os grandes veículos durante as manifestações, “não tem Globo, não tem Record, não tem nada […] Tem muita imprensa de sites […] jornalistas livres e essa galera assim. Porque as grandes mídias não tão nem aí pra essas manifestações” afirma Barbara.

Além de não estarem presentes durantes as manifestações, outra crítica que os manifestantes fazem sobre a mídia é a maneira como os protestos são transmitidos. Para Luciana, a mídia está “sempre mostrando alguma parte esvaziada, não dando cobertura aos fatos, e principalmente, sendo parcial nas notícias. Nos colocam como vândalos, sempre dizem que a polícia precisou agir”.

 

Redação

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Nam quis venenatis ligula, a venenatis ex. In ut ante vel eros rhoncus sollicitudin. Quisque tristique odio ipsum, id accumsan nisi faucibus at. Suspendisse fermentum, felis sed suscipit aliquet, quam massa aliquam nibh, vitae cursus magna metus a odio. Vestibulum convallis cursus leo, non dictum ipsum condimentum et. Duis rutrum felis nec faucibus feugiat. Nam dapibus quam magna, vel blandit purus dapibus in. Donec consequat eleifend porta. Etiam suscipit dolor non leo ullamcorper elementum. Orci varius natoque penatibus et magnis dis parturient montes, nascetur ridiculus mus. Mauris imperdiet arcu lacus, sit amet congue enim finibus eu. Morbi pharetra sodales maximus. Integer vitae risus vitae arcu mattis varius. Pellentesque massa nisl, blandit non leo eu, molestie auctor sapien.

    1
Artigo Anterior

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *